sábado, 31 de outubro de 2009

O maestro

Perdeu o emprego
Casa, carro, cachorro
A família e o sossego

Foram-se a batuta e os amigos
Restava-lhe, apenas, o mais caro abrigo

Se perdesse a musamada
A  planta que seu coração regava
Teria que (re) aprender a reger sua orquestra, sem os braços
Juntar aos poucos, pelas ruas, seus pedaços

Teria que reinventar sua estrutura
Sua pele, seu ópio, sua cura

30-10-09

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Decolagens

São as asas da gente
a causa da constante agitação

Se, ao menos,
aquietassem-se um bocado,
sei lá,
durante o sono,
no trabalho, durante os diários banhos...

São as asas da gente
que necessitam voar
para não perder a embocadura

São as paixões com asas,
que nos moldam aventureiros, nossa essência
neste oásis emprestado,
desde que deixamos os oceanos...

28-10-09

domingo, 25 de outubro de 2009

Mel

Cheiro
de noz noscada,
pimenta, coentro, orégano,
salsinha e louro

De onde moro vejo o azul,
João de Barro, Sabiá, Canário,
Gavião do Mar, Chupin, Cardeal,
de todos, o maior tesouro

Braço de mata mar adentro,
vida voltando pra onde nasceu

Abaixo as Gaiolas!
Curiós, Pintasilgos, Caturritas, Bem que os vi
e .....................abelhas

Vivo de braços abertos,
aprendo com o canto de meus professores,

Mesmo sem saber sou urbano,
um humilde sul americano

Minhas estradas de ida e volta
escrevem uma partitura,
daquelas que adoçam o tempo,
como receita de rapadura...

25-10-09

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Esperando protocolos

Caminho até o riacho
Mal me aproximo, sinto o cheiro fétido
Nada novo, mais um produto químico usado para "tratar" o couro dos curtumes

Sigo adiante, encontro uma vertente
Ela forma uma pequena bacia natural

Agacho-me para matar a sede e dou de cara com uma inofensiva cobra d'água
"Fosse você, não beberia", ela aconselha

Olhos nos olhos
Lembro da adolescência, dos acampamentos no rio Taquari
"Onde tem cobra, a água é limpa", dizia-se...

" Que devo fazer"? Pergunta-me o pequeno réptil

Entre no primeiro braço do regato
Vá para longe dos detritos, respondo

Da margem, tentarei te acompanhar
Se encontrares a saída, avise-me:

Devo retornar ao caos urbano
Para resgatar aqueles que me são caros


23-10-2009

Fotografia, setembro de 2014


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Lentes da alma

Um par de cada vez
Ela vai se adonando
Dos olhos que passam

Vivemos de nossos fregueses
Que dentro de nós se instalam
Todos de uma só vez.

De posseira à  freguesa

21-10-09

domingo, 18 de outubro de 2009

Liberdade

Acampava-se ali,
onde ainda não havia o Resort.

A melhor vista da praia do Santinho,
barraca de costas pro mar,
com direito a um lagarto como vizinho.

Tinha olhos azuis esverdeados a felicidade,
como o mar de Papillon.

Sentávamos na pedra mais alta do morro
pra observar a dança das águas
ao som da música das gaivotas.

Esperávamos pela sétima onda.

Quando ela chegava, lá do alto do precipício,
jogávamos cascas de coco no oceano.

O coco pegava carona no repuxo,
não sabia pra onde iria,
mas jamais se espatifava nas pedras...

Não importava
que as férias estivessem chegando ao fim.

Jamais abdicaríamos de nossos sonhos...

18-10-09

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Olimpíada

Pôrto Alegre, sexta feira nublada,
trânsito tranquilo...

Mas o que é aquilo?
Quase um acidente!!

Mané xinga zé, que rexinga mané

Mané puxa a arma, sai à caça de zé...

Dois quarteirões adiante, estampidos.

No ar, cheiro de morte...
Nos lares fala-se mal do Rio de Janeiro...

16-10-09

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Estoque zerado

Tamanha era a pressão dentro de casa que o tio da Ana Lúcia não suportava, se mandava porta afora rumo ao chinaredo
Nem era pra ter sexo com as prostitutas, chegava no cabaré pedia uma cerveja no balcão do bar e proseava fartamente com as gurias até se cansar

Tinha como inimigo o relógio, cujos ponteiros a seu ver, andavam muito depressa

Gente fina , o tio da Ana Lúcia, dizia Maria a dona da mercearia
Não merecia, noite sim outra também, deitar-se com uma jararaca em casa
A situação ficava crítica, quando o estoque de soro anti-ofídico zerava no posto de saúde da cidade

15-10-09

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Becos

Cruzo por becos minados,
invoco meus anjos de plantão

São minhas batedoras, as palavras,
ecoam nos osbstáculos,
indicam o caminho a seguir

Escondo-me,
elas dizem
que eu fique no meu canto
estático na espera

Tolo,
pensar que sou desbravador(a)
A palavra é gente que me gera...

14-10-09

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

domingo, 4 de outubro de 2009

Rio acontece mar

Um casal de turistas brasileiros é discriminado por um motorista de táxi em lisboa, desconfiado de que não lhe paguem a corrida
O passageiro , com o dinheiro na mão, defende-se
A mulher está apavorada

Sou a gostosa da Rocinha e tenho poder
Sei que o dono da padaria me deseja...

Uma ampola de vinho Bordeaux é deflorada no Sena junto à Pont Neuf
Para deleite dos amantes

À cata de um ônibus na Avenida Carlos Gomes, ela ruma para o Jardim Botânico
Enquanto lembra das noites de St. Pauli em Hamburgo

Depois do doce inferno de Dante, plantas e flores

Sou cego, mas escuto o rio a fluir...

04-10-09

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Das predileções

Prefiro lugares sem grife
Onde o folhetim se desenrola
Como nos versos de Cartola

Em tempo hábil
Escapo das armadilhas(Oficinas Literárias)

Fosse religião, seria sacrilégio

Elas rasgam o Cântico Negro, de José Régio

02-10-2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Janelas

Não quero conhecer seu passado
Somente, se quiseres que eu saiba

Quero saber do presente
Foi lá que lhe conheci

01-10-09